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16 de Maio, 2022

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Emoção vs Sentimento

9 min read
Já alguma vez parou para pensar o que é que acontece dentro de si quando se apaixona ou quando sente a angústia de ter sido desiludido, ou a alegria de conquistar um objetivo, ou a raiva de alguém no trânsito? O que está a acontecer dentro do seu cérebro nesse momento?
Emoção vs Sentimento

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É comum as pessoas dizerem que têm certas coisas na vida que são emocionantes ou que têm alguns sentimentos que são muito importantes, mas o que significa isso? O que são emoções? E sentimentos?

Imagine-se na seguinte situação: você está numa praia nas Caraíbas, uma praia paradisíaca, é verão, está sol, e, então resolve dar um mergulho. Já dentro de água vê um cardume de peixes a vir na sua direção e, do meio desse cardume de peixes vê um tubarão, ficando cara a cara com ele (o tubarão).

De facto é muito interessante o que acontece no seu cérebro quando ele processa a informação do tubarão. Assim o cérebro inicia a coordenação e execução de um protocolo de ações muito complexas e vai exigir ao corpo inteiro uma série de mudanças, tais como: as suas pupilas dilatam, a sua boca seca, o seu estômago altera o funcionamento, o intestino pára, (logo, se estiver com o intestino cheio, ele será evacuado; assim, acontece o famoso fenómeno “cagado de medo”), o sangue do seu corpo é redirecionado, os vasos sanguíneos comprimem-se e o sangue é desviado de lugares que neste momento não são tão importantes, como por exemplo o sistema digestivo, sendo enviado para zonas mais importantes como por exemplo grandes músculos. É por isso que se sente frio na barriga quando se está com medo. Outro lugar de onde o sangue é retirado é do rosto, é por isso que quando se observa uma pessoa com medo ela geralmente parece pálida, branca. Além disso, o seu cérebro ordena as glândulas a segregarem hormonas no sangue, tais como a adrenalina e o cortisol que vão fazer com que a frequência cardíaca aumente, resultando num ritmo cardíaco mais rápido, mas verifica-se também o aumento da sua eficiência cardíaca fazendo com que o coração bombeie um maior fluxo de sangue a cada batida.

No cérebro, neurotransmissores, como por exemplo a dopamina, vão fazer com que fique hipervigilante, ou seja, jamais dormirá se estiver na presença de um tubarão. Também irá viver um fenómeno que chamamos de visão de túnel, isto é, não é déficit de atenção mas quando se está perante o perigo, o cérebro deixa-nos com preceção enviesada e hipersensível a qualquer experiência negativa e ameaçadora que aconteça à nossa volta.

Tudo isto e muito mais acontece em menos de meio segundo, logo, se compreendeu esta orquestra fisiológica vai entender o que é uma emoção.

Assim, emoções são “programas” coordenados pelo cérebro que gerem alterações no seu corpo. Essas alterações são ações no sentido amplo da palavra, ou seja, são ações a uma escala microscópica, como por exemplo: a secreção de hormonas na sua corrente sanguínea ou a secreção de neurotransmissores nas sinapses (ligação) dos seus neurónios. Estas ações ainda podem ser mais complexas, como por exemplo movimentações das suas vísceras, ou ainda mais complexas, como por exemplo uma ação comportamental, repare! No caso de ter um lobo faminto à sua frente, o mais provável é atacar ou fugir, logo, as emoções são um fenómeno muito inteligente da natureza que fazem com que um ser vivo aja sem perder tempo. Assim, a emoção está relacionada com a ação.

Mas como gerar comportamentos biologicamente vantajosos frente a uma necessidade emergente?

É importante referir que a emoção é automática e nós não temos controlo efetivo das emoções, por outras palavras, nós não conseguimos controlar as emoções.

Por vontade própria ninguém olha para um leão feroz e pensa “Acho que vou parar para pegar no telemóvel e ligar para alguém me vir ajudar!”. Se pensarmos bem, certamente que desejava controlar as emoções de forma a ser menos impulsivo, mas lá está, não as conseguimos controlar.

Vejamos outra situação: imagine-se num dia em que se sente triste, decide sair à noite para um bar, olha à sua volta e vê uma pessoa interessante e sensual e decide dizer a essa pessoa o que realmente sente. Parece realmente uma ideia interessante, só que do ponto de vista da sobrevivência humana isso seria um desastre para o seu processo emocional. Muitas vezes referimos “morro só de pensar nisso”, pois como não controlamos a reposta da outra pessoa, ficamos instáveis, por isso, as emoções existem para garantir a nossa sobrevivência.

Assim, se aparece um leão feroz a correr atrás de si a coisa mais ridícula que você pode fazer é ser racional, imagine-se com o leão a correr atrás de si e, nesse momento, decide resolver o cálculo de aceleração do leão e comparar com o seu, ou tenta analisar se você sobe à árvore ou se corre, ou se grita por alguém… Durante esse processo o leão já o devorou, logo, a eficácia da emoção deriva justamente do facto de ela ser automática, por isso está totalmente fora do nosso controlo.

“As emoções são predominantemente inconscientes, ou seja, elas ocorrem abaixo do limite da nossa perceção.”

Hugo Miguel Carvalho

As emoções estão sempre associadas a estímulos, esses estímulos podem ser estímulos externos como no caso do exemplo que dei do tubarão, um alimento, uma pessoa querida que nos aborda, ou então, uma pessoa que você odeia, ou um assaltante, ou qualquer coisa que ocorre no mundo.

Esses estímulos podem também derivar de conteúdos mentais, ou seja, ideias são capazes de provocar emoções. Faça este exercício: pense em alguém de quem gosta; com base neste pensamento, o seu cérebro desenvolveu uma reação emocional. Mas e se pensar em alguém que odeia? Bem… o resultado continua, também, a ser uma reação emocional.

Ao recordar-se de algo, bom ou mau, pode desenvolver uma reação emocional no seu corpo. Além disso, as emoções operam numa escala que vai de positivo a negativo; chamamos a esta escala “valência”.

Emoções de valência positivas são aquelas que nos inclinam a comportamentos de aproximação, como por exemplo, quando uma coisa nos faz feliz nós tendemos a aproximarmo-nos dessa coisa, já as emoções de valência negativa são aquelas que nos inclinam a comportamentos de afastamento, quando temos medo de algo tendemos a comportamentos de afastamento ou a atacar.

As emoções são predominantemente inconscientes, ou seja, elas ocorrem abaixo do limite da nossa perceção.

Quando se cruza com alguém conhecido na rua e o cumprimenta, entende que a emoção é automática, mas quando se depara com uma cobra na sua frente fica plenamente consciente de que está com medo.

A partir do momento que tomou consciência da sua emoção, já passou por um outro processo que nós chamamos de sentimento.

O sentimento é o segundo patamar da emoção; o sentimento é a perceção consciente de um programa emocional e essa perceção é sempre parcial, afinal de contas quando está com medo, cada um de nós não tem consciência de que o diâmetro das suas pupilas está a variar.

Por causa dessa programação emocional só se percebem partes dessas alterações porque elas então a fazer uma distinção entre a emoção e o sentimento. A primeira razão é neuroanatómica e neurofisiológica, logo, as estruturas, circuitos e áreas cerebrais que são responsáveis por mediar as emoções não são as mesmas que são responsáveis por mediar os sentimentos, por isso estamos a falar de circuitos cerebrais diferentes para cada uma dessas funções.

A segunda razão é porque nem sempre uma emoção se torna consciente e, neste sentido, é perfeitamente possível que ocorram alterações emocionais no seu corpo e não tenha consciência disso, portanto, não se torna o que nós chamamos de sentimento.

Vejamos o seguinte exemplo: sempre que vê uma pessoa por quem tem uma paixão ocorre uma reação emocional no seu corpo, isso faz com que haja uma variação na dilatação das pupilas, além de transpirar das palmas da mão, e tudo isto acontece de forma impercetível. Para estudarmos estes fenómenos recorremos a técnicas laboratoriais e assim conseguimos com várias técnicas e métodos estudar estes fenómenos, mas o mais incrível disto é que estes fenómenos ocorrem e nós não temos perceção deles no nosso organismo, portanto, trata-se de um processo que ocorre largamente no patamar do inconsciente.

Considero que todos nós já passamos por isto: se por exemplo, vir uma foto do(a) seu(sua) ex-namorado(a) com quem teve uma relação de mágua no passado, vai provocar uma reação emocional,  essa reação emocional fará com que fique mais fechado(a), mais agressivo(a), fará com que filtre diferentes informações que estão à sua volta e fará com que o seu comportamento se altere.

E porquê?

Porque as emoções estão na base dos comportamentos. Se eventualmente se sente entranho e aborrecido e alguém se aproxima de si e comenta esse seu estado, vai perceber que foi o facto de ter visto a tal foto que fez com que se alterasse o seu comportamento ao longo do dia. Este é um bom exemplo de uma emoção que permaneceu inconsciente, praticamente, por todo o dia.

Mas somente mais tarde o sentimento surge, ou seja, primeiro acontece a emoção inconsciente, só depois, o sentimento consciente.

Aliás, é perfeitamente possível que uma emoção não se torne um sentimento, ou seja, que a emoção permaneça oculta na nossa consciência, pois ela acontece num nível abaixo da nossa perceção, lembra-se?

Entende-se agora por que é que as emoções são “as coisas” mais rudimentares, automáticas fisiológicas.

Contudo, isto não significa que seja simples, nem medíocre, pelo contrário, é uma gigantesca orquestra fisiológica que funciona para que consiga produzir as emoções.

“(…) gerir sentimentos e as suas próprias emoções melhora as suas relações profissionais e as suas relações afetivas, as suas relações interpessoais e, portanto, a sua vida como um todo.”

Hugo Miguel Carvalho

Já o sentimento, é psicologicamente complexo, porque ele é consciente; assim, vai ser necessário envolver as suas experiencias e memórias. Vejamos: quando tem um sentimento de amor, isso vai envolver as memórias dos amores passados, vai envolver as poesias que já leu, os filmes que já viu; assim, o sentimento vai envolver as ideias e planos que tem para o futuro.

Quando tem um presságio de que algo mau que pode acontecer no seu trabalho, está a comprometer, nesse processo, os seus planos de futuro, por isso, determina novos desafios na sua carreira ou modifica determinadas questões profissionais Isto acontece porque tem mapeando o sentimento que vai envolver a perceção que tem de si próprio, da sua identidade e da sua personalidade.

Assim, gerir sentimentos e as suas próprias emoções melhora as suas relações profissionais e as suas relações afetivas, as suas relações interpessoais e, portanto, a sua vida como um todo.

Esta perspetiva que vos deixo é uma adaptação de uma série de estudos, de facto, não têm de concordar, mas um dos maiores defensores deste modelo a nível mundial é o português António Damásio, um dos maiores especialistas do mundo sobre a biologia das emoções, no qual recomendo dois livros: o clássico de 1994 , “Erro de Decarte”  e um mais recente “O cérebro criou o homem”. E se for mais exigente recomendamos o capítulo sobre “Neurobiologia das emoções” do livro “Princípio de neurociência”, também de Damásio.

Muitas outras dúvidas ficam no ar sobre as emoções e os sentimentos específicos e, acima de tudo, como acontecem no cérebro. Assim, quando ama ou quando está apaixonado, ou por que é que somos mais interessados nas tragédias do que nas notícias positivas, são assuntos que traremos a discissão em momentos próximos.

Hugo Miguel Carvalho
Professor universitário – ISCIA

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