Categorias


Contactos

Praça da Corujeira 38,
Apartado 3825 | 4300-144 Porto
telf: +351 225 899 626/8
fax: +351 225 899 629
geral[at]dignus.pt

16 de Maio, 2022

Portal Dignus

Mais um site WordPress

António Malheiro – Publindústria

9 min read
Texto por Helena Paulino
António Malheiro da Publindústria

A comunicação permanecerá sempre!”

No dia 01 de abril de 1986 nascia a Publindústria – Produção de Comunicação, a primeira empresa portuguesa totalmente dedicada à imprensa técnica, uma lacuna do mercado português identificada por António Malheiro que se tornou num sonho e num projeto que duram até hoje. Ao longo dos anos foram surgindo revistas e livros nos trilhos das indústrias metalomecânicas, elétricas, construção e, mais recentemente, agroalimentar, e assim foi sendo construído um grupo de comunicação técnica, onde a partilha de conhecimento e a relação com as universidades são pilares fundamentais.

Trinta e cinco anos volvidos e António Malheiro identifica agora o Grupo Publindústria como um conjunto de empresas focadas na difusão do conhecimento técnico e científico, sendo este apoiado por uma forte relação entre a indústria e as instituições de ensino. Parabéns, Publindústria!

Dignus: No mesmo ano em que Portugal entrava na CEE, nascia a Publindústria como editora de revistas e livros técnicos. Como surgiu a ideia para este projeto?

António Malheiro: Sempre tive a ideia de lançar um negócio próprio. Uma empresa de comunicação foi a circunstância que o ditou e não, de todo, uma ambição de partida.

A entrada na CEE, sim. Naquele tempo vivia-se no país uma onda de ambição empreendedora bem presente na quantidade de registos de empresas que tinham referência à Europa na sua designação social. No caso, a circunstância (o lançamento da empresa de comunicação) decorre da experiência e vivência que eu tinha acumulado ao serviço da Revista TecnoMetal, uma publicação da Associação da Indústria Metalomecânica do Norte que ainda existe e na qual trabalhei em regime liberal durante quatro ou cinco anos. Os inputs que então ia recebendo na presença em feiras europeias, onde ia ao serviço da Revista TecnoMetal, sinalizou-me um défice de oferta em Portugal de imprensa especializada. Foi o clique!

Dignus: É o projeto da sua vida?

António Malheiro: Nunca encarei a vida pelo prisma de ambição e realização pessoal. O meu projeto de vida estava, e está alinhado, em etapas e vai-se realizando de forma cumulativa numa abrangência que passa pela Publindústria, a família e a docência.

A carreira profissional de professor que exerci durante 35 anos, e da qual me reformei depois de atingir o topo da carreira e a exaustão face à degradação das condições e estatuto da docência, é a única etapa que está totalmente encerrada.

Dignus: Em que etapa está agora?

António Malheiro: Neste momento estou a fazer a transição geracional da Publindústria no quadro de uma estratégia que há anos tinha na cabeça. Esta passa por dar participação aos meus colaboradores na estrutura societária dos negócios do grupo e partir para outra etapa, que é viver sem agenda e sem relógio! Mais disponibilidade para mim, para a família e para os amigos, mas sem me deixar cair na armadilha de ser apanhado pelo stress do tédio.

Trabalho remotamente e cumulativamente faço horticultura em Freixiel, Vila Flor, onde tenho uma propriedade agrícola que herdei dos meus sogros e onde já plantei centenas de árvores florestais.

Dignus: Nessa transição geracional, qual o papel da família?

António Malheiro: Quando lancei a Publindústria, a minha mulher entrou em pânico, ao que se sucedeu uma atitude preventiva de controlo financeiro apertado, dado o sentimento de risco associado à decisão. Compreendo o receio dela e, por outro lado, desde sempre procurei afastar os filhos da empresa. É arriscado “meter os ovos todos no mesmo cesto”, como se costuma dizer.

Continuo a pensar que foi uma boa opção. O tecido empresarial português é povoado de microempresas – com pais, filhos, noras, sobrinhos – uma grande confusão que geralmente termina nas mãos do gestor de insolvência.

Dignus: Qual foi a primeira revista que a Publindústria trabalhou? Tem um carinho especial pela mesma?

António Malheiro: A Publindústria iniciou a sua atividade no dia 01 de abril de 1986 (uma coincidência) e recebeu então o portefólio de revistas e clientes que eu já tinha em carteira como prestador de serviços (Revista TecnoMetal; Revista Nova Têxtil; Fag Portuguesa; Cenfim e outros).

Eu até tinha carteira de corretor de publicidade do Jornal de Notícias e O Primeiro de Janeiro, o que me permitiu dar ordens de compra de espaço publicitário com conta corrente e receber comissões próximas das agências de publicidade. Um corretor diplomado…

“A primeira revista da Publindústria é a Robótica e Automatização, que surge em 1989. Obviamente que tenho um carinho especial por essa revista, tanto mais que foi um parto muito difícil porque havia conflitos de interesse com a Revista Tecnometal com a qual colaborava e colaborei durante muitos anos.”

António Malheiro, Publindústria

Dignus: Quando é que lança a primeira revista?

António Malheiro: A primeira revista da Publindústria é a Robótica e Automatização, que surge três anos depois, em 1989. Obviamente que tenho um carinho especial por essa revista, tanto mais que foi um parto muito difícil porque havia conflitos de interesse com a Revista Tecnometal com a qual colaborava e colaborei durante muitos anos.

Dignus: Recebeu apoios de fundos ou foi um caminho solitário e sofrido?

António Malheiro: Solitário sim, mas sofrido não porque o ritmo de crescimento a que me impus estava sincronizado com a minha disponibilidade de tempo por força da minha condição de professor. Por essa altura, a “bazuca” PEDIP (Programa Estratégico de Dinamização e Modernização da Indústria Portuguesa) estava a “bombar em força” para a economia portuguesa e acabei por beneficiar indiretamente dos fundos. Os fabricantes europeus e os seus agentes comerciais usavam a imprensa técnica para promover máquinas e equipamentos.

Dignus: Quais os momentos mais marcantes e que ficarão, para sempre, ligados à Publindústria nestes 35 anos?

António Malheiro: Talvez não os classifique como momentos épicos, no sentido de um sucesso retumbante, mas ressaltaria algumas conquistas ou marcos:

  • A Revista O Electricista e as Jornadas Tecnológicas e, na circunstância das mesmas, o lançamento da Ixus – Formação e Consultadoria. Um doce amargo…
  • A abertura da Publindústria ao setor especializado agroalimentar com a Revista Agrotec, em 2011, é também um marco do nosso percurso que até aí seguia exclusivamente pelos trilhos das indústrias metalomecânicas, elétricas e construção.
  • O lançamento da marca Engebook associada ao livro técnico de engenharia é outro marco significativo, porque foi o ponto de partida para o nascimento da Quântica Editora – empresa do grupo que estrutura a oferta de edição e comercialização de conteúdos especializados em suporte de livros e ebooks.
  • A decisão de não deixar cair a Engenho e Media num período crítico que atravessou.
  • A venda da tipografia do Grupo Publicor e aposta na impressão digital.
  • Sair da pandemia com as empresas saudáveis.

Refiro alguns dos momentos marcantes pela positiva, mas a eles correspondem uns tantos mais de fracassos e frustrações, em parte por falta de ousadia em não ter rompido com a carreira de professor. É caso para dizer que me estou a reformar com 70 anos de serviço! 35 de professor e 35 de empresário.

Dignus: Já passaram muitos autores, diretores e parceiros ao longo dos 35 anos da Publindústria. Qual a relação que mantém com os mesmos ao longo de todos estes anos?

António Malheiro: Sinto que tenho um grande défice de manifesto apreço público pelos diretores das revistas, que são pessoas de uma enorme generosidade que contribuem pro bono para a promoção da ciência e tecnologia. Procuro – e os meus continuadores seguem também nesse sentido – que os diretores venham da academia e, assim, estabelecemos uma profícua interação indústria-universidade, que é a marca identitária das nossas publicações e talvez a justificação da longevidade das revistas do grupo.

No tocante aos autores, tem sido muito gratificante trabalhar como editor. A edição de livros técnicos não encaixa nas taxonomias culturais do país – viu-se agora com a pandemia em que os editores técnicos e científicos foram excluídos dos apoios para a cultura que o governo andou por aí a distribuir (e bem). Somos um país de poetas!

O que move um engenheiro ou um professor do ensino superior a publicar um livro é o seu sentido de serviço público aos outros, de partilhar a experiência acumulada ao longo da sua carreira. Temos mais de uma dezena de autores com mais de 70 anos. A minha relação com os autores tem sido muito enriquecedora pelo que me transmitem da sua experiência de vida e conhecimento, mas também pelo lado afetivo. O nosso autor entra na editora como se estivesse no seu gabinete. Um autor da Quântica Editora não pede licença para entrar. Entra e trata os colaboradores pelo nome.

Não posso esquecer que, para além dos autores e diretores de revistas, há outros stakeholders que fazem parte do universo do meu percurso de vida empresarial: os clientes e os fornecedores não financeiros. Foram eles que sempre alavancaram os meus projetos e não os bancos, a quem nunca solicitei um financiamento. Tinha e mantenho medo dessas instituições.

Dignus: A Publindústria ao longo dos anos foi sofrendo mutações, com o nascimento de outras empresas do mesmo grupo. Como é, atualmente, constituído o Grupo Publindústria?

António Malheiro: Entendo a Publindústria como um cluster de promoção e difusão do conhecimento técnico e científico, um interface entre as empresas e as instituições de ensino e investigação. Não diria que sofremos mutações, mas sim que temos vindo a agregar novas áreas de negócio à nossa matriz genética – as engenharias industriais. Exemplo disso é o caso das ciências e tecnologias agroalimentares sob a marca Agropress. Contudo, esta evolução não nos fez perder o foco nos conteúdos especializados. Presentemente temos quatro frentes de negócio juridicamente autónomas e duas áreas de negócio partilhadas (o design, sob a marca Delineatura, e a estrutura administrativa, financeira e contabilística).

“Entendo a Publindústria como um cluster de promoção e difusão do conhecimento técnico e científico, um interface entre as empresas e as instituições de ensino e investigação. Não diria que sofremos mutações, mas sim que temos vindo a agregar novas áreas de negócio à nossa matriz genética – as engenharias industriais..”

António Malheiro, Publindústria

Dignus: É caso para perguntar se ficamos por aqui?

António Malheiro: Se isso acontecer, é mau. As revistas, os jornais e a televisão podem morrer, mas a comunicação permanecerá sempre!

No grupo, há um défice no audiovisual. O grupo tem de acelerar a migração para o digital, como já o faz com liderança nos livros ebook, onde fomos pioneiros.

Ao longo destes 35 anos, nunca recusei um projeto de negócio que viesse dos meus colaboradores. Alimento a esperança de que isso possa vir a acontecer antes de me reformar. Um colaborador inteligente, disponível e empreendedor tem forte probabilidade de ser empresário dentro do grupo. A realidade o demonstra inequivocamente.

Dignus: O Covid-19 mudou muitas empresas na sua forma de trabalhar. Como reagiu o Grupo Publindústria a esta pandemia e ao confinamento?

António Malheiro: Há duas vertentes no grupo: a componente jornalística e a editorial. A primeira não oferece dificuldades em ser exercida em modo de teletrabalho, tanto mais que as equipas já tinham muito caminho feito.

Já havia espírito/unidade na equipa. A questão que se colocava era com iriam reagir os nossos clientes. Esta era a nossa incógnita, o nosso medo! Felizmente que a indústria e a agricultura, onde reside a força do nosso mercado, foram resilientes. Passámos pelos pingos da chuva sem grandes sobressaltos internos.

Outra questão é a frente editorial porque exige uma logística de produção e comercialização que não se compadece com o teletrabalho. Sempre “com o coração nas mãos” e sentido de responsabilidade no uso dos meios de proteção, os colaboradores souberam assegurar com profissionalismo o desempenho das funções e até tivemos um aumento significativo das vendas, derivado de termos já consolidada a nossa estrutura de comércio eletrónico. Houve nisto uma quota de sorte, porque não prevíamos a crise.

Dignus: Olhando para o futuro, quais os projetos e expetativas para os próximos 35 anos?

António Malheiro: No que toca a negócios, é uma boa pergunta que deixo aos meus continuadores. Quanto a mim, daqui a 35 anos, espero estar vivo na memória dos meus netos. Esse é o projeto que tenho em mãos: cuidar das árvores que plantei e cultivar afetos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.