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16 de Maio, 2022

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Sexualidade e Envelhecimento

5 min read
sexualidade e envelhecimento

Desde sempre que o tema da sexualidade não é discutido o suficiente quando nos referimos à vida dos idosos. É sempre mais fácil presumir que o envelhecimento traz consigo mudanças irreversíveis e que a sexualidade se torna num assunto pouco importante ou até mesmo inexistente nesta etapa do ciclo de vida. A maioria dos cuidadores e profissionais de saúde desconhecem ou ignoram a saúde sexual do idoso, muitas vezes por falta de conhecimento sobre educação sexual, o que leva à formação de ideias pré-concebidas e mitos.

O conceito de sexualidade é um conceito abrangente e complexo que, segundo a Organização Mundial de Saúde (2001), pode ser definido como “uma energia que nos motiva para encontrar amor, contacto, ternura e intimidade; ela integra-se no modo como sentimos, movemos, tocamos e somos tocados, é ser-se sensual e ao mesmo tempo ser-se sexual.”

De acordo com a OMS, a sexualidade afeta a saúde física e mental, manifestando-se em todo o ciclo vital, por isso os idosos necessitam que a sua busca por prazer seja respeitada. A definição da OMS lembra-nos que a sexualidade não deve ser negligenciada e que não deve ser alvo de discriminação, assim no caso dos idosos em contexto institucional não é exceção, e devemos salvaguardar o acesso aos mesmo direitos.

“Está nas nossas mãos combater este estigma e reforçar que a vivencia da sexualidade é importante em qualquer idade e que merece ser vivida e apreciada.”

Catarina Ribeiro

São muitas vezes as nossas atitudes e crenças que nos impedem de tratar com a naturalidade necessária este tema, é urgente eliminar vários mitos que nos condicionam a ter uma maior recetividade à vivência da sexualidade na 3ª idade, nomeadamente:

O idoso não está interessado em sexo. Consideramos que a vivência da expressão da sua sexualidade passa para segundo plano e que a preocupação com a sua sobrevida face às comorbidades ocupa um lugar primordial, sendo o desejo quase inexistente.

  • O idoso não é capaz de concretizar uma relação sexual. Predomina a ideia de que com o passar dos anos o individuo deixa de ter um desempenho sexual satisfatório, o facto de considerarmos que uma sexualidade completa se resume ao coito, faz com que a visão de sexualidade seja muito restritiva, principalmente no idoso. Este pode enfrentar limitações que o impedem de qualquer ato penetrativo, seja por falta de ereção, falta de lubrificação ou ate mesmo por dispareunia. O sexo não é só penetração, e muitas vezes a troca de carinhos, abraços, beijos e carícias podem ser suficientes.
  • O idoso pode já não reunir plenas capacidades para tomar decisões. Nem sempre conseguimos determinar a capacidade do idoso de tomar decisões sobre a sua sexualidade, no entanto podemos atuar preventivamente na segurança destes estando atentos a situações de possíveis oportunismos ou até mesmo de coações, sem nunca desconsiderar todas as possíveis razões para esse comportamento.

Para além das barreiras provocadas por estas ideias pré-concebidas, temos também que ter em conta as limitações que os próprios idosos experienciam e que também os impedem de desfrutar de uma sexualidade saudável, algumas delas transversais a qualquer idade, tais como:

  • As mudanças corporais, o que leva os idosos a sentiram-se menos atraentes e menos confiantes.
  • As doenças crónicas e os medicamentos associados ao tratamento das mesmas, responsáveis por provocar o declínio de algumas funções biológicas.
  • A perda do conjugue, e por sua vez a perda do parceiro sexual, limitando oportunidade de ter uma relação sexual. Esta preocupação é agravada pelas baixas expectativas de construírem um relacionamento amoroso futuro.
  • A falta de privacidade, especialmente relevante quando se encontra em contexto de institucionalização. A falta de um ambiente à prova de intromissões e interrupções leva o idoso a reprimir as suas necessidades (quer a solo, quer acompanhado) com o receio de ser surpreendido e provocar constrangimentos. É importante proporcionar um espaço de autonomia e privacidade para que possa vivenciar e exprimir a sua sexualidade, assegurando sempre a sua dignidade.

Para que possamos melhorar a qualidade de vida destes idosos, o caminho passa por valorizarmos a sua sexualidade e não considerarmos que o individuo se torna num ser assexuado, proporcionarmos-lhe as condições necessárias para poderem desfrutar da sua sexualidade em pleno, sem interferirem com a liberdade dos restantes idosos com que coabita.

“É importante proporcionar um espaço de autonomia e privacidade para que possa vivenciar e exprimir a sua sexualidade, assegurando sempre a sua dignidade.”

Catarina Ribeiro

Para que isto seja possível, é urgente investir na formação das equipas multidisciplinares, consciencializando-as para a importância desta temática através do esclarecimento de crenças e mitos sobre sexualidade, alertando para as dificuldades que afetam a sexualidade na 3.ª idade e fortalecendo os conhecimentos sobre educação sexual. A promoção de debates sobre o tema pode ser um bom aliado, permitindo a discussão de situações que possam ter surgido anteriormente na instituição. Desta forma contribuímos para o envolvimento de todos os profissionais, capacitando-os de estratégias para lidarem de uma melhor forma com as diferentes situações.

Poderá também ser útil proporcionar sessões ou momentos oportunos de sensibilização junto dos idosos (individual ou em grupo), para promovermos uma maior abertura na discussão da sexualidade junto dos profissionais de saúde.

Está nas nossas mãos combater este estigma e reforçar que a vivencia da sexualidade é importante em qualquer idade e que merece ser vivida e apreciada. Desta forma contribuímos para que o preconceito sobre a sexualidade na 3ª idade perca terreno e desbravamos novos caminhos para que estes idosos possam usufruir de uma melhor qualidade de vida e de uma melhor prestação de serviços.

O corpo envelhece, as condições fisiológicas alteram-se, mas necessidade de amar e ser amado prevalece até ao final da vida.

“Qualquer pessoa tem direito à sua sexualidade, em qualquer idade, em qualquer circunstância e estado civil.”

Marta Crawford

Catarina Ribeiro
Enfermeira e Counsellor Sexual da rede de residências sénior Círculo de Mestres

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