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16 de Maio, 2022

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António Poiares Baptista

6 min read
Texto por Marta Caeiro e fotos por António Figueiredo/Diário de Coimbra
António Poiares Baptista

“o envelhecimento é uma evolução fisiológica natural do ser vivo

Foi um dos mais prestigiados médicos dermatologistas da sua geração, professor Catedrático jubilado da Faculdade de Medicina, vice-reitor da Universidade de Coimbra, Diretor dos Hospitais da Universidade de Coimbra durante 5 anos e Presidente do Conselho Científico da FMUC. Aos 93 anos e depois de um notável e intenso percurso de vida dedicado à medicina e à Universidade, o professor António Poiares Baptista é o nadador federado mais velho do país, tendo até conseguido chegar ao top mundial na sua categoria, Masters (o escalão dos 90 aos 95 anos), da FINA (Federação Internacional de Natação). À sua frente, apenas o japonês Tajima Toshio, o russo Lisitskiy e o norte-americano Motmans August. Dedica ainda parte do seu tempo à pintura, que o preenche “como ler um romance”. Ainda que reconheça as limitações que o processo de envelhecimento pode trazer, António Poiares Baptista encara a vida com leveza e naturalidade.

Dignus: Aos 93 anos, professor Poiares Baptista é um dos 4 nadadores do mundo da FINA (Federação Internacional de Natação) na sua categoria (Masters). Como desenvolveu esta aptidão para a natação?

António Poiares Baptista: Na realidade não sou “um dos 4 do mundo…”. Para meu espanto fui, há 3 anos, o 4.º classificado a nível mundial na categoria Masters (90 – 95 anos) na prova de 50 metros bruços, depois de um japonês, um russo e um americano. Aprendi a nadar pelos 10-12 anos na Barrinha da praia de Mira, onde passava as férias de verão. Nadei depois na AAC [Associação Académica de Coimbra] na piscina que todos os anos era montada no rio Mondego. Mas devo precisar que nunca ganhei uma prova individual, talvez algumas estafetas. Era um praticante banal… No liceu a piscina existiu apenas 2 anos. Contudo, cheguei a ser da seleção de voleibol, jogo que depois nunca mais pratiquei.

Dignus: O que sente quando está na piscina?

António Poiares Baptista: Nada de particular além da satisfação de conviver com amigos e colegas da mesma faixa etária. E que a água esteja com boa temperatura!

Dignus: Ainda continua a disputar campeonatos?

António Poiares Baptista: Devo precisar que só retomei a disputa de campeonatos após a jubilação (com 70 anos), pois passei a ter tempo livre (embora ainda tivesse mantido atividade profissional privada até cerca dos 80 anos). Foram os amigos que me levaram novamente para a natação ao verificarem que ainda nadava razoavelmente e que talvez seria capaz de fazer bons tempos.

Dignus: Olha para o desporto como um importante contributo para um envelhecimento saudável?

António Poiares Baptista: Creio que sim, pois há sempre uma certa vaidade quando já com uma certa idade praticamos um desporto ou fazemos exercícios físicos, procurando manter uma silhueta não muito “degradada”.

Dignus: Mesmo não tendo por hábito cozinhar, procura algum equilíbrio na sua alimentação diária?

António Poiares Baptista: Na realidade não percebo nada de cozinha nem faço ou fiz dietas especiais. Costumo dizer que como o que me dão e o suficiente para não ficar com fome ou de “barriga cheia”!

Dignus: Quando é que percebeu que queria ser médico?

António Poiares Baptista: Sempre quis ser médico, o que era natural, pois o meu pai era médico do quadro do ultramar, em Moçambique, onde sempre exerceu. Muitas vezes o acompanhava nas inspeções médicas no mato, tinha então 7 ou 8 anos, até aos 9 anos, idade em que os meus pais nos deixaram em Coimbra para continuarmos os estudos. Éramos dois. Acontece que ficamos em casa de um tio, também médico. O meu irmão mais velho foi engenheiro nos CTT fazendo toda a sua carreira em Moçambique, Macau e Angola. E os meus 2 filhos também são médicos!

Dignus: Viveu os anos 50 em Paris, onde fez a especialização em dermatologia e conheceu a sua mulher, professora na Alliance Française.. Que recordações guarda dessa época?

António Poiares Baptista: Vivi em Paris durante 5 anos. Nos primeiros 3 anos fiz a especialidade de dermatologia. E depois elaborei a tese de doutoramento universitário. Felizmente sempre com bolsas de estudo do Governo francês e da Fundação Calouste Gulbenkian. Foram anos que me marcaram muito, pois era a primeira vez que saia do país. Foi um período em que tudo era novidade para mim vindo de um país que nessa altura era bastante fechado. Foi realmente um período que me marcou profundamente, de grande utilidade para a minha formação intelectual e cuja influência sempre se manteve. Sublinho que a minha esposa era francesa.

Dignus: Disse numa entrevista que na sua especialidade, “a primeira coisa é olhar para o doente e ler o que ele tem na pele”. Sente que hoje em dia na medicina há falta de tempo para “ler” o doente?

António Poiares Baptista: Creio que sim. Não podemos esquecer que as doenças da pele são, em regra, facilmente visíveis e com caraterísticas que em geral levam ao diagnóstico. Eu costumava dizer aos alunos que é como olhar para uma pintura e procurar interpretá-la. Portanto temos que ter tempo para as interpretar, para as “ler”. Muitas vezes temos que recorrer a “leituras” mais específicas como o estudo histopatológico.

Dignus: Tem uma carreira cheia entre os Hospitais da Universidade de Coimbra e a Universidade. Onde foi mais feliz? Sente saudades do ensino?

António Poiares Baptista: Não faço destrinça, embora as funções fossem naturalmente diferentes. A escolher, escolheria naturalmente o hospital. Tenho saudades do ensino dos alunos e dos jovens médicos do internato e naturalmente da vivência hospitalar. Mantive a consulta privada durante ainda cerca de 10 anos até ao falecimento inesperado da minha esposa.

“A degradação é nítida quando procuramos adaptar-nos a novas tecnologias que vão surgindo e que são direcionadas sobretudo para as gerações mais novas, dificultando progressivamente a sua utilização pelos mais idosos.”

António Poiares Baptista

Dignus: Para além da natação, há outros hobbies que preenchem o seu tempo, como a pintura. São estas atividades que vêm reforçar também a saúde mental?

António Poiares Baptista: Creio que sim. Pintar é para mim um bom passatempo, mesmo quando não estamos “inspirados”. Muitas vezes recorro à pintura nos momentos em que o estado de espírito não me atrai para outras atividades. É como ler um romance ou um livro.

Dignus: O que pesa mais na idade?

António Poiares Baptista: É a progressiva degradação das nossas capacidades intelectuais e/ou físicas e ter a nítida consciência dela. A degradação é nítida quando procuramos adaptar-nos a novas tecnologias que vão surgindo e que são direcionadas sobretudo para as gerações mais novas, dificultando progressivamente a sua utilização pelos mais idosos. Eu considero-me um exemplo… o que me enerva facilmente. E não menciono a progressiva falta de memória, que é talvez a queixa mais frequente nos encontros dos idosos.

“Julgo que poucos são os idosos que se consideram ‘normais’(…)”

António Poiares Baptista

Dignus: Quais os principais desafios de ser idoso nos dias de hoje? Portugal é um bom país para se envelhecer?

António Poiares Baptista: Julgo que será difícil dar uma resposta perante os inúmeros problemas que os idosos podem apresentar (físicos, psíquicos, orgânicos, sociais…). Cada idoso pode ser um “caso”…. Julgo que poucos são os idosos que se consideram “normais”… Classificar um país com maior ou menor capacidade para envelhecer parece-me bizarro. O envelhecimento é uma evolução fisiológica natural do ser vivo.

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