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16 de Maio, 2022

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Ruy de Carvalho

8 min read
texto e fotos por André Manuel Mendes
Ruy de Carvalho

O espírito não tem rugas”

Aos 92 anos é o símbolo de uma geração. Acarinhado pelos portugueses, Ruy de Carvalho é um dos atores mais conceituados em Portugal, um verdadeiro sinónimo de arte e cultura que continua viva e persistente.

Mas acima de tudo Ruy de Carvalho é pai, avô, bisavô, um homem amado por aqueles que fazem parte da sua vida, e esse tem sido um dos seus pilares. Na jornada da sua vida contou com a companhia e o amor de Ruth. Apesar de já não estar ao seu lado, Ruy de Carvalho acredita que se vai encontrar com ela “lá”.

O avô de muitos portugueses continua no ativo e a trabalhar em teatro, novelas, anúncios e com uma agenda sempre preenchida. A revista “Dignus” foi conhecer de perto o ator, aliás, o homem por detrás do ator, e tentar perceber o segredo para um envelhecimento ativo e saudável. Sentados no sofá de sua casa, no meio dos “trabalhos de casa”, de livros e de distinções, Ruy de Carvalho contou-nos sobre a sua vida, o seu trabalho, as suas paixões e do que é preciso para ser feliz: “vivam sempre”.

Dignus: O facto de ter vontade de trabalhar com 92 anos é o elixir para se manter ativo?

Ruy de Carvalho: Sobretudo para mim sim, porque para mim é um prazer trabalhar. Não vou desistir de viver, porque a morte é certa, e enquanto a vida andar comigo e me acompanhar eu vou vivendo e trabalhando. Tenho uma memória dentro do possível, decoro com facilidade, ainda conduzo, ando apenas com alguma dificuldade, já não faço o que fazia com tanta facilidade e tenho que ter cuidado com as quedas. Trabalho todos os dias, tenho a televisão, o teatro, e mesmo com os 92 anos ainda me vou aguentando.

Eu disse isto uma vez e repito sempre, eu tenho 92 anos por fora mas tenho 28 por dentro. Nunca devemos desistir do nosso espírito, porque o espírito não tem rugas, e como tal temos que nos valer dele. Ainda faço muitas coisas que muitas pessoas mais novas do que eu dizem que já não podem fazer, aliás, não podem ou desistem, mas não podemos desistir de nada na vida.

Dignus: Como são encarados os atores com mais idade dentro da arte da representação?

Ruy de Carvalho: Sobretudo para mim sim, porque para mim é um prazer trabalhar. Não vou desistir de viver, porque a morte é certa, e enquanto a vida andar comigo e me acompanhar eu vou vivendo e trabalhando. Tenho uma memória dentro do possível, decoro com facilidade, ainda conduzo, ando apenas com alguma dificuldade, já não faço o que fazia com tanta facilidade e tenho que ter cuidado com as quedas. Trabalho todos os dias, tenho a televisão, o teatro, e mesmo com os 92 anos ainda me vou aguentando. Eu sou muito bem recebido, os jovens gostam muito de mim. Trabalho no Teatro Experimental de Cascais que tem muitos jovens e recebem-me como se eu tivesse a idade deles. Mas infelizmente há muito poucas oficinas, há pouco interesse estatal pela cultura e sobretudo pelo teatro. Há imensos teatros fechados atualmente, e o público também tem que ajudar, pois sem público não há espetáculo. Há muitas terras em que os teatros funcionariam se as pessoas os frequentassem, mas essas mesmas pessoas abandonam o teatro, o cinema, e só optam pelo futebol, mas isso é pouco.

O que marca e marcará sempre um país é a sua cultura, pois é extremamente importante para todos os povos, tanto quanto o desporto, pois o grande objetivo da vida é uma “mente sã em corpo são”. Mas basta ver qual é o orçamento do Estado para a cultura para vermos que não se faz nada em Portugal.

“Eu disse isto uma vez e repito sempre, eu tenho 92 anos por fora mas tenho 28 por dentro.”

Ruy de Carvalho

Dignus: Qual foi a primeira peça em que entrou há 77 anos quando começou na representação?

Ruy de Carvalho: Foi numa peça portuguesa, de um autor e músico portugueses, Joly Braga Santos e Luiz Francisco Rebello, a peça chamava-se “Jogo para o Natal de Cristo”. Depois disso continuei a fazer diversos trabalhos para o Teatro do Centro Universitário da Mocidade Portuguesa, peças dirigidas pelo mestre de teatro Ribeirinho.

Mas a peça que mais prazer me deu a fazer foi “O Render dos Heróis” de José Cardoso Pires onde representava o povo português. Aqui era cego, mas apenas quando queria [risos].

Dignus: Uma carreira de 77 anos é uma vida. Quais os momentos que mais o marcaram?

Ruy de Carvalho: Foram imensos, não consigo especificar um em particular, mas tenho sobretudo momentos muito marcantes na minha vida particular. Tenho os meus filhos, tive um casamento muito feliz com uma pessoa que me completava e eu a ela, e isso é uma parte muito importante da vida de um artista, é ter em casa um amparo muito grande.

Tive momentos muito bonitos na minha vida, e tenho ainda hoje, principalmente quando o público se aproxima de mim, me agradece, são essas as coisas que me tocam profundamente, são sinal que fui verdadeiramente útil na sociedade a que pertenço. Eu sou do país, e se fosse trabalhar lá fora gostaria que fosse sempre como representante do meu país, nunca perderia a minha nacionalidade.

Dignus: E compara a sua arte de hoje com aquela que existia há 77 anos?

Ruy de Carvalho: Houve sempre crise na cultura em Portugal. Houve muita gente a dizer que lutava pela cultura, mas isso nunca foi verdade. Só tratam da parte económica do país, que é claro muito importante, mas também é importante ser competente, e pessoas que sabem não são levadas como carneiros, uma
pessoa culta não é um carneiro, e por isso a arte é por vezes um inimigo dos Governos, sobretudo nas ditaduras.

Dignus: O amor pela leitura sempre o acompanhou. Lê bastante e foi autor e co-autor de diversos livros. Esse mesmo amor é um dos segredos para se manter uma mente ativa numa idade avançada?

Ruy de Carvalho: Gosto muito de ler. Ler é fundamental para qualquer ator e também para acompanharmos a cultura geral e a evolução dos povos, pois todos temos de evoluir. Por falar nisso, os novos trazem coisas novas e os velhos não se podem agarrar só à experiência. Os novos obrigam-nos a evoluir.

Dignus: E ouve muito os mais novos?

Ruy de Carvalho: Oiço muito os mais novos sim. Tenho filhos e netos, duas gerações que escolheram e evoluíram na minha profissão. Paralelamente a isso tive também uma mãe que era pianista, gente que gostava muito de cultura na minha família, ou seja, sempre vivemos num ambiente onde a cultura tem um lugar de destaque.

Dignus: O que gosta de fazer nos seus tempos livres?

Ruy de Carvalho: Gosto de viajar, gosto muito de ouvir música, sou um apaixonado por música, vivo com música e gosto de tudo o que seja bom, bem tocado e por profissionais. Gosto muito de amadores profissionais, aqueles que têm outra ocupação para além desta arte, e esses são um bom público. O amador é aquele que ama aquilo que faz, e eu acho que também sou isso.

Tenho que aproveitar também para descansar. Deitando-me às duas da manhã e é complicado levantar-me muito cedo, até porque entretanto também tenho que estudar, decorar textos, em casa, tenho que fazer trabalho para levar para o trabalho, seja ele televisão, cinema, teatro, ou publicidade.

Dignus: A sua família é uma peça fundamental na sua vida?

Ruy de Carvalho: A família deve ser sempre uma peça fundamental na vida de qualquer pessoa, são eles que fizemos e deles que vimos. Eu tenho uma filha jornalista, um filho ator, netos com profissões muito bonitas, um engenheiro geólogo, outro piloto aviador, outro comandante, entre outras, e tenho também bisnetos. Tenho uma base familiar muito grande, sou viúvo há muitos anos de uma pessoa que
me ajudou muito na minha vida e que eu amei muito.

“A família deve ser sempre uma peça fundamental na vida de qualquer pessoa, são eles que fizemos e deles que vimos. ”

Ruy de Carvalho

Dignus: O grande amor da sua vida, a Ruth, faleceu em 2007. Como é que se vive o luto?

Ruy de Carvalho: Eu tenho uma vantagem, eu acredito que “lá” a vou encontrar. Continua viva dentro de mim, na minha memória, quando preciso converso com ela. A morte é natural, toda a gente nasce para morrer.

Devemos viver a vida, nunca podemos desistir de viver, não nos podemos humilhar e pensar que não valemos nada. Nós valemos pelo conhecimento que temos, com os novos a beberem da nossa experiência, e devemos acompanhar a evolução e compreender as coisas novas que nos vão trazendo.

Dignus: A sua cadela Naná teve um lugar especial na sua vida. Qual a importância de um animal na vida de um idoso?

Ruy de Carvalho: A Naná foi um animal muito importante na minha vida e continua a marcá-la porque continuo a tê-la no coração.

Há países em que os animais têm uma importância muito grande e ajudam muito os idosos, fazem-lhes companhia, são uma forma de recordar as pessoas de que amar é bom. Amar um animal e sentir a sua retribuição é muito bom. Onde eu trabalho há um cão que vem ter comigo para me cumprimentar. Numa vez aproximei-me dele, estava receoso, mas agora é ele que me chama, quando eu chego começa a ladrar a pedir-me festas. São provas de amor que vêm dos animais.

Dignus: Quais são os seus projetos para o futuro?

Ruy de Carvalho: Os projetos é fazer aquilo que querem que eu faça [risos], nunca fui um homem de escolher coisas para a minha vida. E faço as coisas com muito prazer. Enquanto a memória funcionar e o corpo andar não paro quieto, porque parar é morrer.

Dignus: E qual o conselho que deixa aos leitores para se viver uma vida plena mesmo numa idade mais avançada?

Ruy de Carvalho: Não se pode desistir, temos vida enquanto tivermos porque a morte é certa. Temos um limite que não o conhecemos, portanto até lá temos que viver a vida e não pensar que não servimos para nada, não!

O conselho que dou é “vivam sempre”, morram só na altura que foi escolhida para vós.

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