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16 de Maio, 2022

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Velhices LGBT: Desafios para o envelhecimento ativo

9 min read
O envelhecimento populacional é uma das evidências do significativo aumento da expetativa de vida nas últimas décadas. A longevidade é uma conquista para a nossa sociedade, mas também o motivo de importantes ressignificações, com a necessidade de proporcionar um melhor acolhimento às necessidades das pessoas idosas nos seus aspetos biopsicossociais, para que vivam a velhice ativamente.
velhice LGBT

A implantação de programas direcionados ao Envelhecimento Ativo foi um marco importante, e nesse contexto a proposta da Organização Mundial da Saúde para que as pessoas idosas tenham a sua autonomia e independência preservadas teve uma relevante contribuição para a ampliação de políticas públicas, tanto na prevenção e orientação em saúde, quanto no fortalecimento de espaços que promovam a participação social desses indivíduos. Neste cenário de pluralidade do envelhecer, constituído por diferentes contextos e realidades socioculturais, é relevante considerar que a tendência de envelhecimento populacional também será observada entre lésbicas, gays, bissexuais e pessoas transgéneras (LGBT).

Dessa forma, os especialistas em geriatria e gerontologia podem deparar-se com situações desafiadoras nas suas práticas ao cuidarem de uma pessoa idosa LGBT saudável, com demência ou até mesmo na sua fase final de vida.

Entretanto, essa população sofre uma “dupla invisibilidade”. Por um lado por serem mais velhas e estarem submetidas aos estereótipos e mitos que cerceiam a velhice, e por outro por terem orientações sexuais e/ou identidades e expressões de género menos comuns à sociedade em geral, trazendo ao longo da vida marcas de preconceitos e violência de origem LGBTfóbicas.

Porém, será que o acesso de pessoas idosas LGBT às políticas públicas acontece com as mesmas
oportunidades das pessoas idosas que não são LGBT? Nos serviços voltados para pessoas idosas, são consideradas as condições de vulnerabilidade e de violência estrutural como o preconceito e a LGBTfobia a fim de proporcionar um atendimento digno a essas pessoas?

O receio de discriminação pode ser uma possível causa para que essas pessoas evitem aceder aos serviços de saúde e demais espaços destinados à sua socialização e participação social, ou frequentarem-nos apenas em último caso. Dessa forma, além de uma forte tendência ao isolamento social e solidão, também expressam piores controlos de algumas doenças crónicas, como diabetes, e também realizam menos exames preventivos como a mamografia ou o papanicolau, no caso das mulheres lésbicas. No fim da vida, inclusive, momento no qual os indivíduos estão mais vulneráveis, as pessoas LGBT relatam, em pesquisas, os medos de ficarem sozinhos, de serem discriminados e de morrerem com dor.

Além disso, o receio antecipado de discriminação leva algumas pessoas LGBT à ansiedade, à depressão e ao suicídio. Uma pesquisa recente mostrou que pessoas trans preferiam suicidar-se se tivessem que depender de uma instituição ou de pessoas que não respeitassem as suas identidades. Por essas razões, é fundamental discutir medidas para a formação de ambientes e de profissionais friendly, além de combater a solidão, o isolamento social e a invisibilidade que pessoas idosas LGBT sofrem.

Invisibilidade nos serviços voltados para pessoas idosas

A invisibilidade de pessoas LGBT nos serviços de assistência social e de saúde não é diferente do desprezo que sofrem pelas suas especificidades pela sociedade em geral, e a presunção de que todos são heterossexuais e cisgéneros é uma das maneiras de perpetuação dessa questão.

Nesse sentido, muitos questionam se seria relevante saber a identidade de género e a orientação sexual de quem é assistido. Baker e colaboradores mostraram que sim, é relevante. Revelaram que pessoas que se abrem para os seus médicos mostram maiores níveis de satisfação, um melhor acesso aos serviços de saúde, um melhor controlo das doenças crónicas e uma maior adesão às medidas de promoção da saúde. Para além disso, Sharek e colaboradores avaliaram as experiências e os receios de pessoas idosas LGBT ao frequentarem os serviços de saúde. Trata-se de um estudo importante e pioneiro na gerontologia LGBT, principalmente por tentar entender possíveis barreiras no acesso à saúde por essa população. Dos 144 idosos avaliados, 25% não era “assumido” para o seu médico, 26% expressou que nunca iria revelar a sua orientação sexual e 20% apresentava receio da reação do profissional de saúde caso esse descobrisse a sua identidade LGBT.

Tais achados poderiam estar associados ao medo antecipado de discriminação e com a falta de confiança no equipamento de saúde, além de explicar o porquê de mulheres idosas lésbicas realizarem menos exames preventivos como mamografia ou papanicolau do que as suas contemporâneas heterossexuais. O Canadá, por exemplo, é conhecido por dispor de um sistema de saúde universal, as pessoas idosas LGBT possuem o dobro das hipóteses de não ter um Médico de Família, em relação aos idosos não LGBT.

Com isso, como considerar o envelhecimento ativo pela perspetiva da autonomia e independência das pessoas idosas LGBT, se não existem políticas específicas que garantam o seu acesso e inclusão nos serviços livres de preconceito e violência? Existem programas que fomentam a capacitação de profissionais que atuam na geriatria e gerontologia a fim de assegurar um atendimento humanizado e livre de preconceitos contra pessoas idosas LGBT?

Educação e informação para mudar esta situação

A aprendizagem ao longo da vida foi apontada e inserida pelo Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC Brasil) como um importante aspeto do envelhecimento ativo, que sustenta os outros três pilares (saúde, participação e segurança), conferindo o poder de decisão e maior assertividade na autonomia das pessoas à medida que envelhecem.

Esse conceito dialoga diretamente com a reflexão proposta por Paulo Freire – um dos maiores teóricos em educação do Brasil, que defende a educação como oportunidades de problematização e denúncia de injustiças sociais, como forma de participação ativa do sujeito para a transformação social.

A educação tem uma relação direta com a autonomia e independência no envelhecimento e velhice – o envelhecimento ativo, portanto questões de sexualidade e género são aspetos relevantes para serem tratados neste momento urgente de mudança de paradigmas, dando visibilidade às questões das pessoas idosas LGBT nas suas especificidades, a fim de fortalecer vínculos afetivos, a sua rede de suporte social e fomentar o seu empoderamento e protagonismo para enfrentarem situações de preconceito.

Também é relevante capacitar profissionais para que os serviços sejam humanizados e acessíveis à diversidade, concedendo espaços de diálogo para a construção do conhecimento de forma coletiva, considerando os processos importantes de desconstruções e reconstruções socioculturais, a fim de melhor atender as especificidades e a pluralidade existente na velhice.

Existem programas que fomentem a capacitação de profissionais que atuam na geriatria e gerontologia a fim de assegurar um atendimento humanizado e livre de preconceitos contra pessoas idosas LGBT?

A EternamenteSOU

Em 2017 formou-se em São Paulo (Brasil) o coletivo EternamenteSOU, que posteriormente assumiu a identidade de organização não-governamental (ONG), com o objetivo de dar visibilidade às questões que norteiam as velhices LGBT. A ONG atua também na capacitação e formação de profissionais que atuam na rede de assistência social e de saúde, favorecendo assim uma cultura gerontológica mais sensível às especificidades dessa população, unindo saberes e experiências.

Com esse intuito, a EternamenteSOU foi pioneira no Brasil na realização de eventos específicos com a temática Velhices LGBT em parcerias com o poder público e legislativo municipal, tais como: Seminário Velhices LGBT, Curso de Introdução às Velhices LGBT e Papo Diversidade.

Atuou em ações estratégicas para a visibilidade do tema, para a capacitação de profissionais e para o fomento e fortalecimento de políticas públicas que atendam às especificidades dessa população.

A EternamenteSOU realiza também eventos e atividades socioeducativas para favorecer o autoconhecimento, a autonomia, a independência e o empoderamento das pessoas idosas LGBT por meio de linguagens artísticas, tais como Coral, Expressão Corporal, Teatro, encontros temáticos mensais como o Café e Memórias LGBT, entre outras atividades que favorecem também o reforço dos vínculos afetivos e de pertencimento, aspetos relevantes para o fortalecimento da rede de suporte social e de combate à solidão e ao isolamento.

“PAPO DiverIDADE”

Para tentar modificar o cenário de discriminação, de insegurança e de falta de conforto em clínicas, em hospitais e em instituições de longa permanência (ILPI), a ONG EternamenteSOU decidiu criar um curso gratuito para todos que trabalham com pessoas idosas. Os encontros acontecem mensalmente na Câmara dos Vereadores de São Paulo, também conhecida como “a casa do povo”, por ser um espaço que representa a democracia e a diversidade, e como estratégia de acesso ao poder legislativo, promovendo a reflexão sobre essa temática importante, forçando a visibilidade a essa causa.

Em cada ação são discutidos assuntos relacionados com as definições LGBT, as particularidades de saúde de cada pessoa idosa LGBT e os preconceitos e discriminações sofridos nos serviços de saúde. Além disso, também são debatidas maneiras de linguagem e de abordagem para ser um profissional amigável (friendly), o que pode auxiliar na criação de espaços, práticas, linguagens e símbolos que indiquem que o equipamento de saúde pode ser inclusivo a todos.

Considerações finais

A educação para a diversidade com atividades voltadas para profissionais que atuam com pessoas idosas é fundamental para rompermos com discursos e ações que desconsideram os preconceitos e violência como a LGBTfobia, que desqualificam a voz de pessoas idosas LGBT ou invisibilizam as especificidades da diversidade, seja ela de origem biológica, de orientação sexual ou de género.

A educação, como pilar de aprendizagem ao longo a vida, proposto pelo ILC Brasil, tem um potencial emancipador para as velhices LGBT, por isso, defendemos ações educativas planeadas como estratégia de empoderamento das pessoas idosas, para fomentar a sua participação social na construção e fortalecimento de políticas públicas constituídas por serviços e profissionais friendly, além de cursos estruturados para sensibilizar e capacitar profissionais que atuam em serviços de assistência social e de saúde voltados para a população idosa.

Referências bibliográficas

  1. Organização Mundial da Saúde. Envelhecimento Ativo: uma política de saúde. Trad. Suzana Gontijo. Brasília: Organização Pan-Americana de Saúde, 2005.
  2. Griebling, T.L. Sexuality and aging: A focus on lesbian, gay, bisexual, and transgender (LGBT) needs in palliative and end of life care. Curr. Opin. Support. Palliat. Care 2016, 10, 95–101.
  3. Knochel KA, Quam JK, Croghan CF. Are old lesbian and gay people well served? Understanding the perceptions, preparation, and experiences of aging services providers. Journal of Applied Gerontology 2010;30:370–79.
  4. Baker K, Beagan B. Making Assumptions, Making Space: An Anthropological Critique of cultural Competency and Its Relevance to Queer Patients. Medical Anthropology Quarterly 2014; 28: 579-98.
  5. Sharek DB, McCann E, Sheerin F, et al. Older LGBT people’s experiences and concerns with healthcare professionals and services in Ireland. International Journal of Older People Nursing 2014; 10: 230–40.
  6. McNair, R. Lesbian health inequalities: a cultural minority issue for health professionals. Medical Journal of Australia 2003; 178 (12): 643-45.
  7. Brotman S, Ryan B, Cormier R. The health and social service needs of gay and lesbian elders and their families in Canada.Gerontologist 2003; 43(2):192-202.
  8. Freire, P., Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 2005.
  9. Centro Internacional de Longevidade Brasil. Envelhecimento Ativo: um marco político em reposta à revolução da longevidade. 1.ª ed. Rio de Janeiro, RJ: Centro Internacional de Longevidade Brasil. 2015.

Diego F. Miguel
Médico da Unidade de CardioGeriatria do incor e Voluntário da ONG Eternamente SOU

Milton R. F. Crenitte
Docente em Gerontologia e Saúde Pública. Padrinho da ONG Eternamente SOU

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